Chega de moralismo

“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Para mim, a frase de Caetano é a mais apropriada para falar da morte de Amy Winehouse. Não julgo nem coloco em pedestal. Só acho que cada um sabe onde o calo aperta.

Fico triste pelo talento perdido. Pelas letras sofridas e pela genialidade musical que se foi. E sim, também fico triste de imaginar a vida de angústia que alguém como ela deve ter vivido. Não acho que seja uma escolha consciente do tipo: “hoje vou começar a minha vida de degradação até que isso me mate”. Acho que a explicação está em causas muito mais obscuras e profundas. Tanto é que na procura da vida, de forma mais ou menos consciente, uns se matam de tanto beber, outros de tanto comer, outros por dirigirem de forma imprudente e uns com tiro na testa.

Nós (os que nos achamos certinhos e hoje estamos chocados e perplexos com a morte da moça) tentamos levar a busca de uma forma menos intensa e menos chamativa, até que a morte venha nos chamar. Uns vão para igreja, outros buscam sexo, outros vão para a academia e outros vão ajudar pessoas. Cada um acha um meio, mais ou menos nobre, mais ou menos louvável. Mas para mim, no fundo no fundo, todos nós estamos buscando respostas para os nossos medos, anseios e questionamentos. Ou fugindo deles. Bom seria se tivéssemos mais Madre Terezas, mais Gandhis, mais Mandelas. Que a maioria de nós buscasse as respostas fazendo o bem e servindo de exemplo.

Mas para o que para mim é verdadeiramente repulsivo – muito mais do que as imagens da Amy Winehouse sem dente ou na varanda do hotel com peito de fora –  é saber que centenas de milhares de crianças e adolescentes brasileiros fumam crack, como Amy, para fugir da fome. E que o fazem por não terem escolha. Ou melhor, que o fazem porque um bando de ladrões -  a maioria esmagadora dos nossos políticos – desvia o dinheiro que nós pagamos para construir seus castelos e mansões. Que a grana que deveria servir para construir escola, casa e posto de saúde vai parar na Suíça. Isso sim é vergonhoso minha gente, isso sim é premeditado, armado e motivo de revolta. Estes caras que deveriam nos representar e ser exemplo de conduta e moral, simplesmente porque são pagos para isso, são os que mais nos envergonham.

Então, chega de moralismo e deixem a pobre da Amy em paz. Ela nos disse desde o começo que era problema! Mas na boa, quem somos nós – enquanto eleitores desta podridão e coniventes com essa barbárie - para julgar a busca dela? Vamos olhar para o nosso próprio umbigo e avaliar a parte que nos cabe neste latifúndio? O que a gente tem feito para ajudar meninos e meninas sem escolha a fugir do mundo das drogas? O que a gente tem feito de real e concreto para tirar estes ladrões do poder e cobrar dos caras que elegemos uma solução? O que a gente tem feito para salvar a vida destas crianças miseráveis, que vivem nas ruas de Curitiba, de São Paulo, do Rio e que não têm reabilitação para ir?

Eu confesso que não tenho feito muito. Ou não tenho feito nada. E o dia de hoje me fez parar pra pensar nisso.

Cade a reabilitação para ele? Imagem: reprodução.